O consumo como mola propulsora da sociedade pós-moderna - Solange Galeano

04/06/2014 18:56

   Bauman, em seu livro Vida para consumo, aponta para uma sociedade pautada pelo consumo. De um lado, está a mercadoria como centro das práticas cotidianas; do outro, a constante orientação para que o modelo de conduta seja sempre articulado através do ato de consumir. Para o autor, o adensamento do consumo como fenômeno que regulamenta as ações sociais, políticas e cotidianas é o que o torna peculiar nas sociedades contemporâneas. Se o mercado passa a ser o novo espaço modelador da vida, é através de suas leis que as relações em disputa pelo poder, identidade e inclusão/exclusão passam a ser reconfiguradas. Dentre elas, encontra-se a desregulamentação, a produção incessante de desejos materializados em produtos e, em consequência, o desperdício.

   O poder do consumo é epidêmico, envolve o indivíduo e estimula a dinâmica da sociedade capitalista. O consumo foi (e é) cafetinado a serviço da acumulação capitalista. O poder de consumo é contagiante, e sua capacidade de alienação é tão forte que sua exclusão atribui às pessoas a condição de alienados. O que está em jogo é a racionalidade consumista, em moldes não mais apropriáveis pelos antigos conceitos do paradigma produtivista, tais como produção-produção e sim pela forma categórica de transformar simples objetos e indivíduos em ícones do consumo. Para que isto ocorra, o capitalismo contribui para oprimir o ócio, reduzir o tempo, padronizar o gosto e controlar a natureza intrínseca das coisas.

   O capitalismo, hoje denominado contemporâneo, propende a subsumir a integralidade do tempo em função da produção de sentidos. Tudo visa aceleração do consumo e acumulação capitalista. De modo que o tempo livre virou tempo escravizado. Assim, o consumidor, onde quer que esteja, tende a conceber o ato do consumo mais como uma saída lúdica do que como uma tarefa enfadonha. Para tanto têm a serviço a internet que possibilita o consumo sem o “estresse” do face a face, do subjugo alheio, ou qualquer relação interpessoal advinda da ida às lojas físicas ou dos encontros sociais face a face.

   No entanto, este movimento do consumo é acompanhado por um desvio de valores na sociedade, entre valor de uso e o espírito de aquisição das mercadorias, desvio esse que atinge também as relações pessoais. Neste caso, a lei do valor consiste no mecanismo através do qual a forma histórica particular do caráter social se expressa. Quando contextualizada na mercadoria aglutina os processos e atos produtivos diversos e contraditórios, representando um uso em prol do funcionamento do sistema econômico vigente. É a certeza da satisfação dos desejos; o fetiche da mercadoria e das relações.

   A força da fetichização da mercadoria contribui para substituir estes princípios sociais de valores. Esta, por sua vez, submete a sociedade a uma dominação por coisas suprassensíveis que se realiza nas imagens manipuladas pelas lógicas capitalistas e no movimento de produção pseudo-real que repudia a realidade. A mercadoria ou as pessoas apresentam-se, em sua aparência, como algo auto construída. Assim, o exercício de controle “fascista” à mercadoria encontrou as condições de reprodução nas formas diversificadas de comércio e na fluidez dos fluxos de informação.

   Trata-se da degradação da condição humana na era técnica da informatização que cada vez mais altera o ritmo dos processos vitais de nossa atual ordem social. É  uma contínua alienação das qualidades intrínsecas impostas pela sociedade de consumo e pelo efeito nocivo gerado pela moda na subjetividade individual, submetida, em geral, às regras da necessidade de aceitação social na vida coletiva.

     Assim, vivemos a era das relações humanas embasadas nas relações entre consumidores e objetos de consumo em que o valor a ser pago é dependente direto da confiabilidade da “promessa de satisfação” e “intensidade de desejos”. Um modelo de mercado, também para as relações, puramente capitalista. Uma realidade em que é abolido o senso de caráter. O imediatismo e o vazio de todos os sentidos tornam permissivas ações que terminam por desprezar os valores éticos em todas as relações sociais, gerando tipos de relação volúveis e altamente descartáveis.

               

 


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