Sobre Educação e Espiritualidade - por Clemente Ivo Julliatto

05/08/2011 21:19

 Se a educação abrir apenas os olhos da mente, mas não os do coração, os estudantes não poderão contemplar a vida em sua totalidade

A escola, por certo, é o lugar destinado a aprender lições de ciência. Isso já está bem claro para todos; mas também é o lugar apropriado para aprender lições de vida, isto é, para cultivar o espírito, a transcendência, a busca do sentido da vida e das coisas. E isso ainda não está muito claro para todos. Ou será que a escola pretende apenas formar a mente, sem formar o coração dos estudantes?

Os jovens, mais particularmente porque ainda em formação, são bastante, talvez mais do que os adultos, influenciáveis pelo ambiente que os circunda. Esse ambiente, bem sabemos, nem sempre é o mais educativo. Em consequência, como ensinava João Paulo II, os jovens muitas vezes ficam “privados de pontos de referência autênticos” e, assim, são os mais ameaçados a cair nas “areias movediças de um ceticismo geral”, conclui o Papa.

O tema das relações entre ciência e espiritualidade merece renovado espaço junto ao grande público e, não menos, nos ambientes escolares. A meu ver, essa exigência indica um fenômeno importante: estamos com saudade de nossas origens e interessados em realizar nossas expectativas mais profundas. De fato, elas não se encontram somente no âmbito da razão técnico-científica, mas no da compreensão da vida pela janela da sabedoria, que inclui nossa abertura ao transcendente.

Conta-se que países antes dominados pelo comunismo, como a Polônia e a Ucrânia, quando puderam reconstruir suas cidades e aldeias, depois de libertados do antigo regime, na maioria dos casos, iniciaram o processo de reconstrução pela igreja local. Esse fato revela quanto o fenômeno espiritual está profundamente arraigado na essência do ser humano e de suas sociedades. Assim acontece, porque o significado religioso, na prática, incorpora e orienta todos os domínios do significado, de modo amplo e compreensivo. Como afirmava Philip Phenix, eminente professor da Universidade de Colúmbia, de quem tive o privilégio de ser aluno, em Processos do Conhecer, “a teologia é considerada como a ciência suprema, pois provê generalizações sistemáticas e teorias sobre a realidade última”. Nos ambientes acima citados, como em outros, a religião acabou sepultando o comunismo que a queria destruir e matar. Isso é muito significativo e faz-nos pensar nas razões desse fenômeno.

No âmbito das instituições de educação, quero recordar o que fez o Reino Unido, em 1988. Por meio de um decreto oficial, conhecido como Education Reform Act, as escolas foram obrigadas a oferecer momentos de cultivo da transcendência, incluído no currículo nacional, para todos os alunos, até mesmo em estabelecimentos públicos. Esses momentos, a serem programados em todos os dias do calendário escolar, poderiam ser oferecidos em ato único para toda a escola ou em momentos separados para diferentes grupos de alunos. Com duração de aproximadamente meia hora, poderiam incluir a leitura de um trecho da Bíblia, o canto de algum hino, ou qualquer apresentação ou atividade que envolvesse algum importante aspecto de espiritualidade. No ano de 2006, enquanto fazia um pós-doutorado na Universidade de Londres, esse dispositivo legal acendeu novos debates no Parlamento Britânico. Argumentava-se que se tratava de algo ultrapassado, que muitos estudantes não davam a menor importância para ele, e que mesmo os professores e organizadores da atividade não estavam muito convencidos de sua validade, sem contar o trabalho de preparação que dava a sua realização diária. Propunha-se, simplesmente, a sua supressão ou, no mínimo, que não fosse obrigatório. Como resultado da discussão, chegou-se à conclusão de que a atividade era muito importante e deveria continuar, por ser um momento, talvez o único na vida dos estudantes, em que poderiam ser trabalhados os valores humanos, tão importantes na formação de qualquer cidadão britânico.

O exemplo inglês leva a refletir sobre a relação estreita que existe entre educação e espiritualidade. Trata-se de relação de integração e unidade, de complementaridade e interconexão. Em outras palavras, conclui-se: uma ação educativa que prive os estudantes do elemento espiritual, fundamento das pessoas de bem, não pode ser considerada autêntica educação. Se a educação abrir apenas os olhos da mente, mas não os do coração, os estudantes não poderão contemplar a vida em sua totalidade.

Como educador, estou absolutamente convencido de que a verdadeira educação não consiste em encher cabeças, mas em formar cabeças e corações. A formação integral, portanto, deve incluir o elemento transcendente não como apêndice, mas como um olhar de mais longo alcance, que se abre para contemplar um horizonte mais amplo e mais iluminado. Acredito que o cuidado em bem educar exige o cultivo de tudo o que de fato contribui para a construção da plenitude da vida da pessoa e para a construção de uma sociedade mais humana.

Clemente Ivo Juliatto é reitor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e membro da Academia Paranaense de Letras.


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